Farol da Barra

 Farol da Barra, Aveiro. Dez 2011

As Verdes Colinas de África


Perdi o livro que me acompanhava nesta 1ª estadia em África: As Verdes Colinas de África de Ernest Hemingway. Foi no primeiro de 3 aviões da viagem de Lilongwe para Lisboa. Depois de uma viagem a dormir, acordando apenas com a aterragem, naturalmente que o livro ficou no compartimento das revistas junto ao manual de emergência do avião. Estava a gostar do livro, das descrições da paisagem, das colinas e das planícies, das savanas e das florestas que surgiam entre os relatos das caçadas de Hemingway a rinocerontes, bufalos, leões, kudus, zebras. Do relato da vida no acampamento, do calor e dos mosquitos, do trabalho dos carregadores, esfoladores e portas espinguardas e dos wiskeys com soda no final do dia.
Como escreveu o O Observador, "neste livro e neste pequeno trecho, Hemingway, confessa-se a nós, de uma forma única. Toda a sua essência está aqui." 

"(...) Veria os búfalos pastar no sítio onde viviam e, quando os elefantes atravessássem a colina, contemplá-los-ia e vê-los-ia quebrar os ramos sem ser obrigado a disparar, estender-me-ia nas folhas caídas e veria os kudus a pastar e não os alvejaria (...), ficaria estendido todo o dia atrás dum rochedo a olhá-los pela encosta, vendo-os tanto tempo que acabassem por me pertencer para sempre.
(...)
Claro que não se podia ali fazer vida. (...) Isto era o que nos diziam. Decerto. Mas eu não queria ganhar dinheiro. Tudo o que queria era viver ali e ter tempo para caçar. (...) Adorava o país e sentia-me em casa, e quando um homem se sente em casa fora do sítio onde nasceu, é para lá que deve ir.
(...)
Voltarei a África, mas não para ganhar a vida. Isso posso fazê-lo com dois lápis e umas centenas de folhas de papel barato. Mas voltarei onde me apaz viver; realmente viver. Não apenas deixar correr a vida.
(...)
Aqui posso caçar e pescar. Isto, escrever, ler e ver quadros é tudo o que me interessa fazer. Posso recordar todos os quadros. Há outras coisas que gosto de ver, mas estas são as que gosto fazer. Isto e esqui. Mas as minhas pernas agora estão fracas e não vale a pena dar tantas voltas para chegar à neve. Actualmente vê-se gente demais a fazer esqui. (...)."

Warm Heart of Africa I

Escrevo de Lisboa. Já matei as saudades da família, já estive no café com os amigos, já senti o frio de inverno na cara, já estive com os pés frios, já me irritei no shopping com as compras no natal e já estou com a neura de passar o dia em frente ao computador.

Já me esqueci de metade das coisas que pensava escrever enquanto ia em viagem pelas estradas do Malawi ou do Zimbabwe, embalado pelas curvas e buracos da estrada, pela visão das montanhas arredondadas pelas chuvadas de há milhões de anos, pelas buzinadelas às bicicletas carregadas de sacos de carvão e pelos vendedores de mangas, cogumelos, espetadas de ratos à beira da estrada. Foi um mês e meio intenso, de descoberta, a 1ª vez em África, como a 1ª vez em outras coisas, foi a melhor. Foi um período feliz vivido em pleno, de forma genuína, simples e em liberdade, sem tretas. Conheci várias pessoas boas que me receberam bem, conheci muitos malawianos que me supreenderam pela bondade, inteligência e capacidade de trabalho. Fui tratado como um ser de outra planeta pelas populações mais rurais, os mais pequeninos choravam, os mais velhos olhavam-me com curiosidade e riam-se a cada palhaçada minha. Quando os assustava a brincar fugiam todos para o mais longe que conseguiam enquanto as mães riam às gargalhadas, depois voltavam. Foi assim o primeiro fim de tarde que fui ao poço da aldeia buscar água. 

Ao olhar pela janela do avião na abordagem à pista de Lilongwe vê-se cubatas, terra avermelhada pintalgada com árvores aqui e ali e pequenos campo agrícolas. O aeroporto é pequeno e suficiente para o único avião que aterra diariamente. Puxo as mangas da camisa e preparo-me para o calor. Ao pisar a pista entro num fime nunca visto de um estilo que ainda não tinha ouvido falar. Hi Bwana, welcome to the warm heart of Africa.

Zimbabwe - Mushandike

- Cartografia Geológica
- Cartografia Estrutural
- Recolha de amostras
- Fotos

Material:

Roupa para a chuva
Sacos de amostras
Canetas permanentes
GPS + Cartões + pilhas recarregáveis
Máquina fotográfica
Bússola
Lupa
Íman
Lanternas
Fita métrica
Replente
Martelo de geólogo
Kit 1º Socorros
Canivete
Chapéu

Trabalhadores Mushandike:

Equipa A - Takawira Matiza, Honest Muzondo, Godknows Shonhayi
Equipa B -  Nyasha Ozore, Cephas Mashizha, Courage Mashizha.

Geology of Malawi

Geology of Malawi

The greater part of Malawi is underlain by cristaline rocks of Precambrian to lower Paleozoic age which are referred to the Malawi Basement Complex.
At various localities in the north and south of the country these rocks are overlain uncomformably by sedimentar and subordinate volcanic rocks which range in age from Permo-Triassic to Quaternary. Intrusive rocks of upper Jurassic to lower Cretaceous age, assigned to the Chilwa Alkaline Province, occur widely throughout Southern Malawi and form a distinctive feature of the local geology. Large tracts of the Lake Malawi litoral, the Shire valley and the Lilongwe, Kasungu and Mzimba plains are covered by various superficial deposits.
The basement complex has undergone a prolongued structural and metamorphic history. The post-basement complex development of the country was dominated by epiorogenic movements, faulting and the formation of the Malawi Rift Valley.

Likudzi Campsite

Likudzi Campsite

- Big Generator
- Electricity
- Dozer for tractor
- Move Mauridi Tent
- Construction (Core House, Office, Diesel House, Bath room, Toillet, Kitchen, Wood, Fence)
- SALARIES!!


Chegada ao Malawi - Lilongwe

Paisagem espetacular, terra vermelha arada, árvores aqui e ali, grupos de cabanas, meia dúzia, dúzia no máximo em campos de terra amarela pisada. Línguas verdes de terra cultivada acompanhando os ribeiros e rios.
Falei pela primeira vez com uma malawiana de seu nome Sofi. Vive nos Estados Unidos e vinha ao funeral da mãe. Expliquei-lhe a razão da minha vinda, apesar de ainda não saber bem. Agora que escrevo já sei que me livrei da mina de Karonga por enquanto. Vou andar na prospectar minerais com recurso a sondagens e trabalho de campo. Gerir equipas e tratar da parte técnica. O meu chefe é o geólogo Rui Franco. Nasceu em Angola e quando foi o 25 de Abril foi com os pais para a Namíbia. Estudou em Coimbra. Senti-me imediatamente à vontade com ele. Não poderia ter tido uma melhor sensação ao chegar ao Malawi.
Fiz a viagem com 2 sondadores, Francisco Ganhão e André Lage, o seu aprendiz. Em relação às sondagens serei por uns tempos o aprendiz dos dois.

Níquel, platinoides, cobre, serão os metais de alta tecnologia que vou procurar e calcular reservas.

Tenho um empregado, o "house boy" que se chama Amos. Vive aqui na propriedade com a sua mulher e os seus 3 filhos. Não me disse a idade, mas que tinha nascido em 1968. Trata-me por "Sir". Talvez deva dizer-lhe para tratar-me por John.

Os residentes da casa são o Renato de Braga e o Gonçalo de Telheiras.

Assim vão passando os dias

Não tenho pressa. Pressa de quê?
Não têm pressa o sol e a lua: estão certos.
Ter pressa é crer que a gente passa adiante das pernas,
Ou que, dando um pulo, salta por cima da sombra.
Não; não sei ter pressa.
Se estendo o braço, chego exactamente aonde o meu braço chega —
Nem um centímetro mais longe.
Toco só onde toco, não aonde penso.
Só me posso sentar aonde estou.
E isto faz rir como todas as verdades absolutamente verdadeiras,
Mas o que faz rir a valer é que nós pensamos sempre noutra coisa,
E vivemos vadios da nossa realidade.
E estamos sempre fora dela porque estamos aqui.

Alberto Caeiro

Should I stay or should I go

Chove como já não chovia há muito tempo. Vou para África, é o mais provável, seja para a mota-engil ou outra empresa qualquer. Tenho 26 anos, o que estou aqui a fazer? Preciso de sair daqui, conhecer outro lugar, ser independente, aprender a cozinhar, dar espaço aos outros e a mim mesmo para crescer. Não vou ver a minha irmã, os meus irmãos, a minha mãe, o meu pai, por períodos de 4 meses. Não é muito tempo, é muito tempo! Mas estou há dez meses parado no tempo, tenho que ir.

Teahupoo


Há tanto a dizer sobre um dos melhores campeonatos de surf já alguma vez visto. A memória de Andy Irons, o swell gigante anunciado e a ansiedade dos melhores surfistas do mundo (tal e qual o comum dos surfistas embora para isso basta que as ondas tenham 2 metros), o go for it do Jeremy na madrugada que as ondas começaram a explodir na bancada com 10 pés, o wipeout do Heiarii Williams que me fez pensar que o campeonato deveria ser cancelado pois não queria ver ninguém morrer em frente ao computador, o melhor layday de sempre com a sessão de tow-in indescritível com Bruce Irons, a prestação digna de Saca, a confirmação de mais uma fornada de ozzies: Owen Wright, Josh Kerr, Matt Wilkinson e Julian Wilson, de onde sairá muito provavelmente os próximos campeões do mundo, e claro, o show de Kelly. Tudo isto a acontecer dentro do tubo, a uma velocidade alucinante, com a visão da cortina de água a passar sobre as nossas cabeças, instantes congelados para sempre na nossa memória.

Andy Irons

Andy Irons (Peniche, 2010)
Passaram cerca de 10 meses desde a morte trágica e inesperada de Andy Irons. Ainda ninguém o esqueceu, principalmente agora com a etapa do WCT de Teahupoo,  último campeonato ganho por AI e que provou a toda a gente, a ele próprio principalmente, que ainda conseguia ganhar. Foi emocionante vê-lo ganhar depois de ter assistido ao período negro que atravessou tanto a nível profissional como a nível pessoal. É estranho ver surfistas que imaginamos que têm vidas de sonho deixarem-se levar nestas marés que afinal também fazem parte da vida. Vem apoiar a minha perspectiva que ao longo de uma vida todos temos que atravessar fazes menos boas e talvez AI, com sucesso precoce, as facilidades de surfista de topo, a excitação da vida no tour, ainda não tivesse experimentado a sensação de ser apanhado nesse agueiro, suponho. Faleceu, ou melhor, deixou de surfar aos 32 anos e será sempre recordado como o único que esteve à altura de rivalizar com o surfista (quiçá desportista) mais bem sucedido da história, Kelly Slater. Foi um surfista implacável em competição, com um surf solto mas preciso, e um repertório completo de manobras, ele era floaters em ondas de 5 metros, completava aéreos em competição numa época em que quase ninguém os fazia e era sem dúvida o rei da melhor onda do mundo: Pipeline.


Deixou Lindy, a sua belíssima mulher grávida de 8 meses do seu filho, Axel Irons que nasceu no dia do início do Pipeline Pro 2010. E o irmão Bruce, por agora, solitário guardião do surf dos Irons, nascido e polido nos reefs rasos e afiados do North Shore da ilha de Kauai, Hawai.

Bruce, Lindy and Axel Irons
AI, Hossegor, France

Jeff Buckley

Na noite de 29 de Maio de 1997, a banda de Jeff Buckley voava para Memphis para se lhe juntar e iniciar as gravações em estúdio do albúm sucessor de Grace (1994), intitulado My Sweetheart the Drunk. Nessa mesma noite Jeff Buckley foi nadar no rio Wolf, um afluente do rio Mississipi, não tirando a roupa que tinha vestido nem as suas botas enquanto cantava o refrão de "Whole Lotta Love" dos Led Zeppelin recorda Keith Foti, rodie que o acompanhava nessa noite, e que ficou em terra. Depois de ter movido o rádio e uma guitarra da margem devido às ondas provocadas pela passagem de um barco rebocador, Foti olhou para ver se via Buckley mas este tinha desaparecido. Apesar de intensas buscas o seu corpo só foi encontrado no dia 4 de Junho no rio Mississipi junto a uma pequena embarcação.



O Sol e o Vento

Ao cair da noite, ao pôr-do-sol, há muitas vezes um período de acalmia do vento que marca a mudança na sua direcção, do mar para terra (onshore) para o seu oposto, terra para mar (offshore). Durante o dia as massas da terra são aquecidas pelo sol mais rapidamente do que as do oceano, o ar em cima delas ascende e cria uma baixa de pressão no solo que atrai o ar mais fresco do mar, a chamada brisa marítima. De noite, como o oceano arrefece mais lentamente, a brisa sopra de terra para o mar. Hoje ao final da tarde consegui sentir esse momento sublime, em que as temperaturas na terra e no mar são exactamente iguais. Deixou de haver vento, a mais leve brisa, houve silêncio total na rua e o tempo pareceu congelar. Epifania.

Surfing pointbreaks and sleeping under pine trees


Hot sand on toes, cold sand in sleeping bags,
I've come to know that memories
Were the best things you ever had
The summer shorn beat down on browned backs
So far from home where the ocean stood
Down dust and pine cone tracks
We slept like dogs down by the fire side
Awoke to the fog all around us
The boom of summer time

We stood
Steady as the stars in the woods
So happy-hearted
And the warmth rang true inside these bones
As the old pine fell we sang
Just to bless the morning.

Hot sand on toes, cold sand in sleeping bags,
I've come to know the friends around you
Are all you'll always have
Smoke in my lungs, or the echoed stone
Careless and young, free as the birds that fly
With weightless souls now.
We grow, grow, steady as the morning
We grow, grow, older still
We grow, grow, happy as a new dawn
We grow, grow, older still
We grow, grow, steady as the flowers
We grow, grow, older still
We grow, grow, happy as a new dawn
We grow, grow, older still

Old Pine
Ben Howard

Location: Vila do Bispo, Sagres